CARRO DO BRASIL CRUZA FRONTEIRAS E AMENIZA RETRAÇÃO NAS VENDAS Valor Econômico 10/02/2017

Recentemente exportadores de veículos passaram por uma situação embaraçosa enquanto negociavam novos contratos. O Equador demonstrou interesse pelos carros desde que, em troca, o Brasil comprasse suas bananas. A ideia provocou uma reação tão negativa dos produtores da fruta brasileiros que sequer chegou a ser discutida pelas autoridades do comércio exterior. Na busca por novos mercados, a indústria automobilística tem se deparado com situações inusitadas como essa. Mas, de modo geral, o saldo tem sido positivo. O setor começa a compensar no exterior parte da queda de demanda no mercado doméstico.Só em janeiro, os volumes exportados aumentaram 56% na comparação com o mesmo mês do ano passado, o que resultou numa receita 48% maior. Foi o melhor resultado de janeiro desde 2014. Além disso, apesar de a produção projetada para 2017- 2,4 milhões de veículos – ainda estar 35% abaixo do total do ano recorde – 3,7 milhões em 2013 – nos embarques para o exterior, os números tendem a ficar muito próximos. Em 2013, 565 mil veículos brasileiros foram vendidos a outros países. A previsão dos fabricantes para este ano é chegar a 558 mil.

Ainda falta muito para o Brasil tornar-se um grande exportador de veículos. Mas a fatia das vendas externas tem crescido. Saiu de 10,6% em 2014 para 24,11% no ano passado. É possível que este ano cresça ainda mais. Por enquanto, nas previsões mais otimistas dos fabricantes, a produção aumentaria para atender também a uma expansão do mercado interno.Não foi só a estabilidade cambial que estimulou a as exportações de carros. “Trata-se do resultado do grande esforço de cada empresa”, diz o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Antonio Megale. O aumento da demanda e suspensão de antigos entraves protecionistas na Argentina ajudou. No entanto, embora continue a ser o principal destino, o mercado argentino deixou de ser a única alternativa para o Brasil.
Os carros brasileiros começam a cair no gosto do consumidor de mercados vizinhos onde há até pouco tempo a indústria brasileira não conseguia competir, como Chile. Segundo o presidente da Anfavea, o interesse surgiu com a melhora na qualidade dos automóveis fabricados no Brasil. Por conta de novas normas de segurança locais o país pode oferecer também ao exterior carros com airbags e outros equipamentos que chilenos e outros da região estavam habituados a ver em modleos importados de regiões mais distantes, como Coreia.Além disso, a perspectiva de acordos bilaterais também embala negociações. A Anfavea espera para breve isenção da alíquota do imposto de importação para carros brasileiros no Peru, que hoje está em 7%. A Colômbia também desponta como novo destino.A empolgação em torno das vendas externas ajuda a apagar as frustrações com o mercado interno.
Executivos contam que em algumas empresas os departamentos de comércio exterior, mais enxutos no tempo o mercado interno era prioridade, começam agora a receber mais recursos e reforço de pessoal.Entre 1983 e 1988 a Volkswagen vendeu 170 mil unidades do Passat ao Iraque em troca de petróleoAs bananas do Equador não são o único caso de sugestão de escambo. Tempos atrás, o Chile chegou a negociar pêssegos e vinho em troca dos veículos brasileiros. Nesse caso, a invasão dos produtos chilenos excedeu necessidades e o acordo não foi adiante.Mas num passado mais distante, um entendimento com o Iraque, que trocou o Passat brasileiro por petróleo, transformou-se num dos mais bem-sucedidos casos de intercâmbio comercial do setor.
Graças a essa negociação, entre 1983 e 1988 Volkswagen exportou somente para o mercado iraquiano 170 mil veículos, volume maior do que o total de embarques da montadora no ano passado.Maior exportadora do setor, em 2016 a Volks vendeu 107,3 mil carros a 17 países. a Argentina ficou com mais da metade. “Em 2017, pretendemos atuar ainda mais intensamente nos mercados da América do Sul, América Central e Caribe, que têm um grande potencial para o desenvolvimento dos nossos negócios”, disse, por meio de nota, o presidente da Volkswagen do Brasil e América do Sul, David Powels.
Desde que começou a exportar Kombis, em 1970, a empresa já enviou do Brasil 3,5 milhões de veículos para um total de 147 países.A General Motors, segunda maior exportadora do setor no país, pretende elevar as vendas externas em 50% este ano, segundo o presidente da GM Mercosul, Carlos Zarlenga. O executivo destaca que a empresa também elevou as vendas ao exterior a partir das fábricas da Argentina. “O aumento das exportações de Argentina e Brasil tem sido impulsionado pela renovação da linha e novas tecnologias de conectividade, bem como pelo impacto positivo das taxas de câmbio, renovação do acordo comercial entre os dois países e pela abertura de novos mercados, como Chile, Colômbia, Peru, Equador, além de uma oportunidade única com o México”, destacou.Apesar do quadro positivo, na peregrinação dos executivos das mundo afora ainda há muito a ser conquistado. Em alguns casos, o Brasil perde competitividade até para os Estados Unidos nas vendas para a vizinha América Central.
É a fábrica da Toyota do Mississipi que fornece o sedã Corolla para os países dessa região, apesar da proximidade de Indaiatuba (SP), onde o mesmo carro é produzido. E com o mesmo nível de qualidade, segundo o presidente da Toyota na América Latina, Steve St Angelo. “Isso ainda corta meu coração”, diz.

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