O impacto da greve dos caminhoneiros para a indústria do aço

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Passado mais de um ano da greve dos caminhoneiros que gerou um prejuízo em torno de R$ 1,1 bilhão para a indústria do aço, abrimos uma profunda reflexão sobre a política de investimentos em infraestrutura em nosso país. Mas, como será que a greve dos caminhoneiros atingiu o setor siderúrgico de fato?

O Brasil é um país altamente dependente do escoamento da matéria-prima por meio da malha rodoviária, a qual corresponde a um dos quatro transportes modais possíveis, sendo eles:

  • Transporte rodoviário;
  • Transporte ferroviário;
  • Transporte fluviário;
  • Transporte aéreo.

O aço, por exemplo, como matéria-prima, é um dos produtos que tem seu escoamento todo feito através das rodovias do país, sendo assim o impacto da greve dos caminhoneiros trouxe um prejuízo incontável para o setor.

Avaliando tecnicamente o problema brasileiro de infraestrutura, podemos concluir que a greve é apenas uma das inúmeras variáveis que podem comprometer os custos do setor, ocasionando um efeito dominó entre outras áreas da economia.

Quando, entre as décadas de 1950 e 1960, o país optou por investir em malhas rodoviárias em detrimento de malhas ferroviárias cometeu um erro que custaria caro para suas futuras gerações, o qual agora desperta debate entre os mais variados campos de estudo.

Quer entender mais sobre o impacto da greve dos caminhoneiros para a indústria do aço? Então continue lendo este artigo!

A greve dos caminhoneiros sobre a ótica econômica

Olhando do ponto de vista econômico, a greve dos caminhoneiros mostrou dois grandes problemas que o Brasil enfrenta: o monopólio do fornecimento de diesel pela Petrobras e o monopólio do meio de transporte, uma vez que ele é, em grande parte, rodoviário.

Para entender a dificuldade que o país enfrenta para solucionar esse problema, precisamos compreender primeiramente a composição do PIB, que é formado pela seguinte equação: PIB = C + I + G + NX, na qual C é o consumo das famílias, I o investimento das empresas e do governo, G os gastos do governo e NX as exportações líquidas do país.

Nesse sentido, quando o Brasil atravessou uma verdadeira ruptura fiscal no ano de 2014, precisando ajustar os gastos governamentais, o governo teve que reduzir a conta G e, devido à incapacidade de reduzir gastos pesados, como o previdenciário, em curto prazo, precisou também cortar os investimentos em infraestrutura, mexendo na conta I.

A grande questão é que os governos anteriores, para disfarçar a inflação que começava a forçar uma alta pelo consumo aquecido acima da possibilidade do PIB, congelaram o preço dos combustíveis. Dessa forma, esses preços dispararam ao serem colocados novamente no valor do mercado no ano de 2015, pegando o setor de surpresa, sem que o mesmo conseguisse efetuar um planejamento para isso.

Desse modo, o problema trouxe agravantes: o aumento de custos logísticos para as empresas e, ao mesmo tempo, a desaceleração econômica, acompanhada de queda nos investimentos.

Para entender o impacto disso, podemos dizer de forma simples que as estradas ficaram deterioradas com a redução de investimentos, o valor do combustível pressionou os custos do setor e a baixa demanda não permitiu o repasse do aumento de custos para o preço do produto. Resultado? Prejuízos incalculáveis para o setor do aço.

A greve dos caminhoneiros sobre a ótica social

Como podemos observar, a greve dos caminhoneiros foi apenas a ponta do iceberg de um problema que estamos carregando há mais de cinquenta anos e que está distante de um desfecho que favoreça o setor.

Primeiramente, essa greve também tem o seu fundamento, afinal o setor de transportes, ao receber a alta dos combustíveis, precisaria repassar os preços. Todavia, com o desaquecimento econômico e o aumento da concorrência, estimulados pela oferta de crédito para aquisição de caminhões, o setor foi forçado a diminuir suas margens.

O resultado social disso foi o surgimento de uma greve, que até o começo dessa década era praticamente impensável.

Isso porque a categoria dos caminhoneiros nunca teve força política, uma vez que muitos desses profissionais costumavam trabalhar para grandes transportadoras. Foi apenas nos últimos anos que o profissional autônomo ganhou espaço nessa profissão.

Perspectivas futuras

Como dissemos, o Brasil está basicamente em uma encruzilhada de curto prazo para solucionar os problemas do setor.

O primeiro é que não poderá controlar o preço do combustível, pois caso contrário as distorções provocadas poderão gerar desconfiança externa sobre a Petrobrás, levando-a a resultados negativos em seu balanço, ou seja, agravando ainda mais a situação.

O segundo fator é que o país está aguardando a reforma previdenciária, necessária para a redução da conta G – gastos governamentais -, para então poder realocar os recursos do orçamento para a conta I – investimentos.

Nesse sentido, as estradas dificilmente conseguirão atender à necessidade do setor de aço, dificultando uma queda nos custos operacionais de transporte, salvo alguns trechos que serão privatizados.

Entretanto, após a consolidação da reforma da previdência, o setor deverá se unir e apresentar ao congresso uma proposta de investimento em infraestrutura como uma forma de aumentar a arrecadação e de promover o crescimento econômico do país.

Sabemos das dificuldades governamentais de trabalhar investimentos em estruturas ferroviárias, mas chegou o momento de repensar tais investimentos através de uma PPP (política pública privada).

Afinal, direcionar os gastos para a construção de malhas ferroviárias e leiloar os setores para o setor privado fazer a exploração, é uma excelente alternativa para a redução de custos operacionais logísticos.

Usando a lei da oferta e da procura a favor

Se o governo direcionar recursos para a construção das malhas ferroviárias, promovendo posteriormente a execução do transporte através de licitações nas quais a iniciativa privada poderá explorar o setor, teremos mais do que uma modalidade de escoamento da matéria-prima.

Nesse caso, haverá queda no preço de ambos os lados, por causa da lei da oferta e da procura. Isso porque, diminuindo a procura por diesel e pelo transporte rodoviário, os seus preços com certeza vão cair. Dessa forma, como o setor poderá fazer cotações em ambos os modais de transporte, nem um e nem outro deterá o monopólio de preços.

Nesse sentido, todos os setores da economia serão favorecidos e um crescimento econômico mais sustentável acabará ocorrendo. Afinal, se acontecer uma greve dos caminhoneiros ou alguma variável que afete o preço do frete, a indústria do aço poderá utilizar outro modal de transporte, evitando dessa maneira prejuízos estrondosos como o ocorrido na greve dos caminhoneiros para a indústria do aço.

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